A questão da calopsita

Há alguns dias atrás, a calopsita daqui de casa (que apareceu do nada, e não sabíamos se era macho ou fêmea) soltou um ovo.
Foi. Um ovo. Então era isso: o ele (chamávamos a tal calopsita de Pikachu, por conta da similaridade), era ela.
Mas restava algumas dúvidas. Tipo: como o ovo foi fecundado? Será que tinha passarinho lá dentro?
Daí que não tinha. Um expert em calopsitas (o cara que vende ração para minha avó), disse que era só a gema e a clara mesmo, sem calopsitasinhas pequenininhas lá dentro. Disse para "rebolar no mato" e dar um banho na bichinha, para, ah, sei lá o por quê. Eu sei que fiquei chocada. Perdão pelo trocadilho.
Fiquei pensando no trauma para a pobre calopsita, a Pikachu. Em sua vida sofrida. Perdida da família, numa casa estranha, pega por uma cadela louca, quase morre, aí ganha uma nova casa, com cachorro grande, pequeno, gato, gente que não respeitava o seu espaço. Um dia resolve botar um ovo. E chocar o ovo. Não entendo muito de calopsitas. Mas ela me parecia realmente feliz por conta de seu ovinho. Então vem alguém e tira seu filho (que, mesmo só existindo em seu pensamento, era SEU ovo, sua cria), e ainda dá-lhe um banho frio. Poxa, o que ela fez para merecer isso?
E se ela tiver passado dias, meses, gerando aquele ovo, esforçando-se, empenhando-se, pensando só naquilo por horas, pensando, "quando será que vai chocar", só por que não foi fecundado, alguém vai lá e tira-o dela.
Uma passarinha não pode se bastar? Tem ela que ter um passarinho para dar fundamento a todos os seus ovos?
Esse questionamento me intrigou.
É como o ser humano. Se não tiver alguém do lado, não se sossega. Eu tiro por mim mesma. Estou sempre atrás de mais alguém, mais um amor platônico, mais um coração partido. Ou apenas uma amiga que me suporte.
Por que? Porque é assim oras. A gente precisa de outro.
Mas tem momentos que a gente quase acredita que se basta. É aquela história, depois de plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho, qualquer um pode morrer em paz. Pois bem, plantar uma árvore é beleza. Mas e o livro? Que é como um filho? Os dois precisam de meses (anos até) para ser gerados, planejados, cuidados. E não dá para fazer nenhum dos dois sozinho.
Mas quando o livro está pronto, quando o filho nasce, eles não são mais seus. Que nem a árvore quando cresce. Não precisa mais de você (ou será que precisa?) - Mas não é essa a questão.
A questão é que a gente não se basta.
E isso é fato.
Então, para a calopsita, resta a esperança de um dia achar um calopsito que a ame, que a fecunde, que choque seu ovo. Que dê a ela um sentido de vida.

Comentários

Rosana Iorio disse…
É minha escritora predileta! Tenho muito orgulho em ser sua tia.

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