Um recado de lá.

Minha filha, a vida é muito justa. Ou injusta. Tudo depende do que você está observando. Veja só minha vida. Sempre me dediquei à minha família. Ainda assim, nunca tive uma família para chamar de minha.
Criei as crias dos outros como se fossem minhas, e as amei. Muito. Trabalhei, muito também. Foi um bem querer mais que bem querer.
Vi uma família brigar por motivos dos mais fúteis. Lutei contra, mas dentro de mim mesma, sabe? Rezei escondida, para ninguém ver, só Deus.
Me vi desaparecer da vida das pessoas. De minha própria irmã. Foi difícil.
Aqui, já aprendi muita coisa. O perdão ainda é minha maior tarefa. Como não ficar com raiva? Raiva das injustiças, raiva das pessoas, raiva de ter partido. Não é justo. Simplesmente não é.
Mas aí você vê que é sim.
Perdoe minha filha. Ainda em vida. Por que perdoar depois que parte é tão mais difícil. Você tem que aceitar e perdoar, simples assim. Em vida, bem, eu acho que poderia ter perdoado com muito mais facilidade em vida. Eu poderia ter conversado, ponderado, dito em voz alta "eu te perdoo", ter abraçado, chorado toda a dor.
Aqui a gente chora, mas sozinho. É tão diferente. Sabe, sozinha, mesmo, mesmo, a gente nunca está. Mas não são as pessoas de quem a gente lembra, as quais a gente ama. E não adianta dizer que é para amar todo mundo igual, por que, por mais que eu tente, não sei fazer isso não.
Ainda não, pelo menos.
Aqui, às vezes, a gente lembra de tudo claramente. Outras vezes, só daquilo que falam e a gente acaba escutando. E é tanta coisa que falam. Nunca coisas boas, minha filha, você consegue acreditar?
Pensei que, quando a gente partisse, virasse santo. Mas o que acontece é que a gente deixa muita coisa por aí.
Eu deixei minha família. E isso não acaba nunca. Enquanto lembrarem da gente, a gente existe. Eu só desejava que lembrassem mais das coisas boas, sabe minha filha?
Mas o amor, ah, esse não acaba não, avise aí a elas. Avise também que estou aqui, tentando perdoar a tudo e a todos. Então, rezem por mim, por favor.

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