Parte 1

Havia apenas uma fresta de luz vindo da janela. Pouca e fraca, vinha de lado, quase esmaecendo. Eu, ainda acordada, depois de muito tempo sentada ali fumando o que devia ser meu terceiro maço de cigarros, tinha lindos e tristes devaneios sobre nós.
Se eu conseguisse dormir, aposto que sonharia com você. Mas há muito o sono vem sendo para mim uma incógnita. Sei que é algo necessário, mas parece tenebroso. Se eu dormir, vou passar horas sem lembrar de você, sem ficar relembrando cada momento. Nem ler eu me permiti. Como poderia gastar meu tempo viajando na neura dos outros quando poderia estar remoendo cada uma de nossas brigas?
A histeria já tinha passado. Agora as coisas estavam piores ou melhores? Qual o termômetro para essas ocasiões? Não comia havia um certo tempo. O quarto foi totalmente fechado, para que o seu cheiro não se perdesse. Minha mãe sempre batia na porta, todos os dias, bem cedo. Eu murmurava alguma coisa para que ela tivesse certeza de que eu ainda estava viva, e ela saía com calma, só para voltar, dia após dia, nem sei por quanto tempo.
Às vezes punha seu cd de rock preferido, aquele que eu odiava, bem alto, só para ver se conseguia ficar com raiva de você, do jeito que costumava ficar, lembra? Mas não tinha muito sucesso. Só uma ocasional dor de cabeça.
Não mexi ainda em suas coisas. A toalha que eu tanto reclamava que você deixava fora do lugar, não tive coragem de tirar de cima da cama. Suas blusas dependuradas nas cadeiras da sala, deixando tudo minimamente desarrumado.
Estava inconformada. Quem lhe dera o direito de me destruir assim?

Comentários

ROSANA IORIO FERREIRA disse…
Querida Gabi, visitei seu blog para dizer que você está em minhas orações todos os dias e no meu coração em morada eterna. Vi esta mensagem e tive vontade de partilhar com você: "Viver é enfrentar um problema atrás do outro. O modo como você o encara é que faz toda a diferença" - Benjamim Franklin
comece a olhar o amanhã cor de rosa, amarelo ou azul, mas MUITO CLARO E LEVE

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